ENTREVISTA

• Fernando Vendrell

Fernando Vendrell

O D. Quixote do Cinema

por Elsa Garcia

fotografia de Carlos Ramos

Se olhássemos para o interior do seu cérebro veríamos uma auto-estrada de ideias que se cruzam a um ritmo alucinante.  A cada segundo um novo filme e uma nova narrativa vão tomando forma e caracterizando esta personagem ímpar do cinema português.

Começou a sua carreira profissional em 1981. Foi fotógrafo de cena, director de produção e assistente de realização. Desde 1992, ano em que fundou a David & Golias, que é realizador e produtor. Quando se deparou com o Prémio Carreira do Fantasporto, o terror e o pânico apoderaram-se do seu corpo. Questionou se este reconhecimento anunciava o fim da sua carreira. Afinal as homenagens deste teor acontecem quando alguém já não tem mais nada a dizer. Pensou em recusar, mas rapidamente vislumbrou a homenagem de uma outra forma: afinal não é todos os dias que se recebe tal reconhecimento.

Fernando é uma personagem sui generis, dotado de uma grande simplicidade, é avesso a posturas arrogantes típicas de mr. knows everything e na sua premissa está um haiku japonês que nos diz que o mais resistente não é a árvore rígida e sólida, mas sim as varas de bambu, que com o vento e com as tempestades, se vergam e permanecem. Adopta assim uma maneira de ser subtil e perseverante, atitude que mantém de criança, desde o tempo que assistia às pinturas de artes plásticas de sua avó e das performances que desenvolvia num grupo teatral do liceu.  Criança rápida, curiosa e activa desenvolveu uma série de características que lhe foram fundamentais para a actual postura no mundo da sétima arte. O seu único deslize foi ter abraçado um curso de agronomia com o qual nada se identificou e onde só fez duas cadeiras passando depois à sua verdadeira vocação: o curso de cinema. Foi lá que se deslumbrou com grandes realizadores e mestres como António Reis, Alberto Seixas Santos e Paulo Rocha que posteriormente o influenciaram na sua carreira.

Da sua vida fazem parte duas profissões que se fundem em vertentes difíceis de dissociar, por um lado a vida de produtor, por outro a de realizador.  Para Fernando o seu trabalho como produtor é um prolongamento da sua actividade criativa que como realizador tem um âmbito temporal de exploração mais limitado. O objectivo é fazer e comunicar sempre em cinema, missão que pode atingir “indo a pé ou de avião”.

Coloca em todos os filmes, as questões abordadas e os temas de uma perspectiva intimista e emotiva relativamente ao que os personagens estão a viver. Gosta que o espectador entre no seu universo e viva as pequenas particularidades e sensibilidades que se projectam nas personagens. Nem sempre é fácil. Por vezes o filme até se torna sufocante. É este o tipo de filmes que gosta de realizar. Começou por Fintar o Destino em Cabo Verde, o primeiro filme de ambos – Fernando Vendrell e David & Golias.  Trata-se de um filme sobre a imigração, a relação entre pai e filho e é também um filme muito forte sobre a frustração e a decepção. Segundo Fernando, “achei que era interessante ligar um tema de manifesto interesse social, como o futebol ao cinema. O filme teve muito mais impacto no estrangeiro do que em Portugal. Foi uma obra que procurou uma poética em termos da forma narrativa e acção e foi filmado em 35mm com uma equipa pequena e muito motivada, o que foi muito importante para mim. Eu próprio fui co-argumentista no filme”.

Em Moçambique filmou O Gotejar da Luz, a primeira vez que realizou para outra produtora, e revelou-se numa “experiência muito importante para mim. Uma rodagem absolutamente extraordinária durante as cheias em Moçambique, que oscilou entre a vida e a morte. Nesse filme aconteceu-me de tudo. Desde crocodilos no set de filmagens a erros de laboratório no corte do negativo.” Passou depois para a intimidade de Pele onde vivemos uma aura estética dos anos 70, num filme onde existe alguém que tem um segredo, não pode revelá-lo e procura uma solução para a sua vida. “Há sempre um código narrativo e a expressão plástica está implícita conceito do filme. É o tipo de cinema que gosto de fazer”, conta. Seguidamente realizou a série televisiva Bocage, uma ideia que tinha desde há muito. Quando era pequeno tinha um livro de anedotas do qual gostava imenso. Era um livro irreverente, libertário e  que lançava imensas questões. Um escritor provocador de livros “proibidos” que fez parte da sua constituição enquanto pessoa que aprecia o lado sensual e erótico, características que estão presentes nos seus filmes. Fernando pega na câmara e logo se dá uma tendência na forma como envolve e seduz os personagens, contrariando o distanciamento e a frieza que existe, hoje em dia, em algum cinema.

Foi após uma visita ao Paço Ducal em Vila Viçosa – o último sítio onde o rei esteve antes de ser assassinado –  que lhe veio à mente a série O Dia do Regicídio. Considera que em Portugal houve  várias mudanças de paradigma histórico,  nomeadamente no 25 de Abril e que são pontos de passagem e de renovação do país. “Como tal achei que uma série televisiva poderia ser uma forma de dar um vislumbre sobre esses momentos de mudança de paradigma”.

Enquanto realizador já ganhou diversos prémios, então porquê o distanciamento da realização em prol da produção? Tal atitude deveu-se ao facto de se ter entregue à produtora com o propósito de lhe atribuir uma maior maturidade, efectuando um esforço para produzir um maior número de obras, o que fez com que tivesse mais dificuldade em realizar.

Fernando olha para si de uma forma quixotesca à procura de si próprio através das coisas que cria e das pessoas com quem está. Para breve, deseja sobreviver ao Fantasporto e anseia realizar a sua próxima longa-metragem. Ao mesmo tempo  sonha com uma nova mudança de paradigma em Portugal. No seu pensamento a angústia oriunda da frustração de fazer trabalhos muito longos, difíceis e tecnicamente complexos que posteriormente não têm espaço para serem vistos. Para 2015 deseja quase como statement a importância da mudança de atitude por parte do público de cinema, provocando um maior envolvimento do artista com a sociedade tornando as obras mais dinâmicas, predominantes e com maior impacto social. Pretende também trabalhar com novos realizadores, “quero encontrar novas formas de expressão que depois consolidem o meu trajecto profissional. Não trabalho por fórmulas e sim por protótipos. Cada filme é desenvolvido e faz-nos adquirir uma linguagem, procedimentos, faz-nos questionar o media e provoca reacções. Essa tecnologia que desenvolvemos é o que nos vai levar para a frente. O haver qualquer coisa de novo e emergente é que nos dá uma lufada de ar fresco, de liberdade”.