ENTREVISTA

• Entrevista a Nuno Canavarro

Nuno

por Elsa Garcia

Nuno Canavarro é um criativo por excelência. Adora desenhar, estudou arquitetura, aprendeu piano e desde há muito que compõe música experimental. Passou pelos Street Kids, uma banda mítica dos anos 80, e mais tarde o seu disco Plux Quba foi editado pela Moikai, a editora de Jim O’Rourke (Tortoise). Este ano o álbum Mr. Wollogallu será reeditado por uma editora europeia.

Nuno liga sempre as coisas a uma história e assim nascem as suas músicas e o seu cinema. A Cinemateca Portuguesa exibiu as suas curtas A Casa da Montanha e Estrada de Nada, esta última em ante-estreia nacional.

Nuno, pode dizer-se que Estrada de Nada é uma curta-metragem sobre a dor, a ausência e entre o sentido da vida e do tempo?

Sim, perfeitamente. A ideia base em relação a Estrada de Nada e A Casa da Montanha era ter um olhar sobre o interior do pais, sobre as aldeias, como um mundo em extinção e em lenta agonia.

Como é que ambas foram pensadas e idealizadas. Estão relacionadas com esta tua necessidade de falar sobre o interior do país?

Sim. Em relação à curta A Casa da Montanha na altura havia uma casa de família, eu tinha histórias de infância passadas nessa casa e conhecia bem aquele mundo.

Pode dizer-se que é biográfica?

Não. Eu tinha várias memórias das pessoas e da vida da aldeia na altura e à semelhança de Estrada de Nada também este filme tem um lado de fantasia.

Qual a relação que tens com os atores? Para A Casa da Montanha convidaste pessoas da tua família e para Estada de Nada atores amadores. Como foi este teu processo?

Por um lado aconteceu devido à falta de orçamento e por outro lado gosto de trabalhar assim. Apesar da falta de experiência estas pessoas podem ter prestações fantásticas num filme e eu estou muito contente com este aspeto dos atores.

Sim, e apesar da inexistência de diálogo, o ator Vicente Vendrell assume um papel bastante forte. 

Ele é um elemento fantástico. Um indivíduo daquela idade que anda de aldeia em aldeia sozinho… Mais estranho ainda é o facto de as pessoas da aldeia lidarem bem com o facto de ele não falar.

No fundo, com estas duas curtas-metragens pretendes alertar para a desertificação do interior do país e para a solidão humana que é vivida nestas aldeias.

Sem dúvida. O que aconteceu recentemente neste país está relacionado com esta desertificação. Portugal tem uma boa parte da população a viver a 30 ou a 40 km do litoral. Custa-me imenso perceber que existem muitas aldeias fantasma em que a escola já não tem alunos suficientes e é fechada, o centro de dia já não se justifica, o centro de saúde idem e estas situações são tenebrosas. Tudo leva a que as crianças e jovens queiram sair das aldeias, o que se percebe perfeitamente pois não existem hipóteses nem de emprego. Conheci aldeias que antes tinham 150 habitantes e que hoje têm 30.

Estudaste arquitetura mas optaste pela música. Como é que se cruzam estes dois caminhos?

Digamos que o meu primeiro amor na atividade de criar foi o desenho. Entretanto havia um piano em casa e comecei a tocar como autodidata, seguidamente fui ter aulas e de repente senti-me entre o cinema, a arquitetura e a música. Comecei depois a estudar arquitetura na Faculdade do Porto, voltei para Lisboa e comecei a perceber que a vida de um arquiteto passava por uma série de coisas que não me atraíam, enquanto que a música permitia uma certa independência. Num aspeto um pouco romântico comecei a perceber que podia ir com um teclado para o meio da rua, o que não era possível enquanto arquiteto.

E o cinema, como é que entra na tua vida?

O desenho para mim sempre foi uma forma de contar histórias e percebi também que as músicas que eu tocava inicialmente eram sempre bandas sonoras de filmes ou de séries de televisão. Adorava cinema e em 1986, 87 pesquisei uma série de universidades americanas e inglesas mas acabei por não seguir esse caminho. Até que finalmente em 2002, 2003 percebi que os computadores e o software tinham evoluído de tal forma que era possível pegar numa câmara e montar o filme em casa. Entretanto como tinha feito alguns trabalhos (composição de bandas sonoras) para a David & Golias, para o Fernando Vendrell e Luís Alvarães  fiquei a conhecer um pouco mais o meio e decidi candidatar-me aos apoios do ICA.

Entre elas as bandas sonoras para os filmes de Fernando Vendrell, O Gotejar da Luz e Fintar o Destino. Sendo que este último é passado em Cabo Verde e acompanhado por uma música experimental e cosmopolita acabando por lhe atribuir uma outra conotação.

Quando o Fernando Vendrell me convidou nunca me disse que queria que fizesse algo inspirado na música local. Conhecia a música que eu fazia e era essa a ideia. O filme acaba com uma música lindíssima com um sabor cabo-verdiano.

No início dos anos 90 o teu álbum Plux Quba foi editado pela Moikai, a editora de Jim O’Rourke dos Tortoise.  Como é que tudo se passou?

Na altura a editora AnAnAnA, de Fred Somsen trocava regularmente discos com outras editoras europeias; foi deste modo que um exemplar do meu álbum chegou a Christoph Heemann, que na altura tinha uma editora em Aachen na Alemanha. Christoph mostrou o disco a Jim O’ Rourke, que me contactou algum tempo depois no sentido de reeditar o trabalho na sua nova editora, a Moikai.

Estás também a trabalhar na tua primeira longa-metragem.

Sim, fiz o que podia fazer em relação a uma história que li num livro que me deixou fascinado e que achei que poderia tornar-se num filme. Agora aguardo os resultados do concurso do ICA.

És um pouco reservado e acabas por não fazer uma grande divulgação da tua obra, quer cinematográfica, quer musical. Porque é que não o fazes?

Porque não tenho jeito nenhum para promover o meu trabalho. É preciso ter talento para o fazer e eu tenho mais talento para criar.