ENTREVISTA

• Entrevista a José Barahona

Jose_Barahona

por Elsa Garcia

Manuscrito Perdido é um filme português passado no Brasil sobre a nossa história comum e as implicações que elas têm no presente, no Brasil. O filme já percorreu mundo, ganhou prémios e teve a sua estreia comercial e sucesso em terras de Vera Cruz. Existe inclusive um livro que consiste na transcrição dos textos e depoimentos do filme, contém um diário de filmagens de José Barahona, fotografias do filme e das personagens. O livro só está à venda no Brasil e online. Manuscito Perdido foi também comprado por duas estações de televisão brasileiras. Neste momento aguardamos a sua estreia comercial em Portugal…

Foi através das cartas de Fradique Mendes, publicadas por José Eduardo Agualusa que te surgiu a ideia para fazer este filme?

Bom, eu já conhecia a personagem de Fradique Mendes através de Eça de Queirós, o criador da personagem, e só mais recentemente li o Nação Crioula de Agualusa. No entanto, o que me serviu de mote, fórmula, dispositivo narrativo do filme foram as várias questões relacionadas com a história portuguesa e brasileira. O que eu queria no fundo era descobrir como é que os descendentes dos índios e escravos se relacionavam com a história de há 500 anos. O Manuscrito e a personagem de Fradique Mendes é apenas o pretexto para ir em busca dessas pessoas.

Este filme é um misto de ficção com realidade cruzada entre a personagem de Eça de Queirós, a resposta de Agualusa e a tua resposta a Agualusa. Como se criam todas estas correspondências?

Eça criou este personagem para falar de outras coisas. Descreve-o no romance A Correspondência de Fradique Mendes e depois publica umas supostas cartas de Fradique Mendes. É através dessa correspondência que tomamos consciência da sua forma de pensar. Foi o que Agualusa fez, há 10 anos com uma outra correspondência perdida de Fradique Mendes, onde encontrou uma carta do próprio Fradique para Eça. Há aqui todo um jogo de ficção. O romance Nação Crioula são as cartas encontradas por Agualusa e que Eça desconhecia. Agualusa através dessas cartas contou a história de quando Fradique se apaixonou por uma senhora angolana, que tinha sido escrava e que depois foi libertada. Fradique foi para África para salvá-la, fugiram para o Brasil, compraram uma fazenda, libertaram os escravos e assim começou O Manuscito Perdido. Quando Fradique libertou os escravos teve que fugir para o Rio de Janeiro porque os escravocratas da região começaram a persegui-lo. Foi durante essa fuga que ele deixou o Manuscrito no Mosteiro de Cairu. Este filme é também uma carta minha para Agualusa, seguindo essa fuga e forma de contar a história através de cartas.

Quiseste também focar-te na história das várias tribos, etnias e seus descendentes. Quase numa abordagem antropológica, ou será histórica?

A minha intenção ao fazer o filme era trazer a visão destas pessoas, da história. Nós em Portugal aprendemos muito sobre Vasco da Gama e os descobrimentos. Em 1998 construímos uma ponte e uma torre Vasco da Gama, fizemos uma Expo com o tema descobrimentos e andamos sempre a olhar para o passado. E qual é a visão destas pessoas? Qual é o outro lado da história? Decidi trazer o outro lado da história e este ângulo de visão para Portugal. Descobri que eles estão mais preocupados com o presente, com o futuro e por isso é que às vezes o filme foge para questões sociais e políticas e por vezes até para a vida pessoal das pessoas. Algumas não estão minimamente preocupadas com a história dos escravos ou dos portugueses e de que há 500 anos foi assim. Eles querem que nós percebamos que existe uma realidade concreta hoje e a forma como lidam com o presente e criam uma nova nação ainda a ser formada a partir desta história.

Fala-me do efeito surpresa das pessoas que foste abordando. Foste à aventura ou tudo estava planeado?

Estava tudo mais ou menos estipulado. Nada aconteceu por acaso, pelo menos na forma como trabalho, mas claro que houve alguns acidentes no bom sentido. Preparei a viagem, fi-la antes do filme e encontrei bastantes personagens com as quais combinei que entrassem no filme. Algumas delas não as encontrei na altura. Por exemplo é muito difícil combinar encontros com os índios. Marquei com eles e ao chegar apercebi-me que tinham ido viajar. Acabei por encontrar outras pessoas e deu-se o factor surpresa.

Houve alguém que tivesse sido especial de alguma forma?

Sim, o caso da senhora que levou um tiro e fugiu da cidade. Quando me viu com a equipa, curiosa, abordou-me a perguntar o que é que eu estava ali a filmar. Convidou-me para ir a casa dela e eu percebi que ela queria ter voz, queria falar. E de facto foi uma das melhores personagens que encontrei para o filme.

E agora a situação oposta. Existiram casos complicados de pessoas que para ti eram importantes e que não quiseram entrar no filme?

Sim, alguns índios ainda continuam de pé atrás com os brancos. Já perceberam que os europeus gostam muito de os filmar, devido à questão exótica e antropológica, e dizem “eles vêm cá sempre tirar qualquer coisa mas não deixam nada em troca. É sempre assim.” Tive essa dificuldade embora tivesse a trabalhar comigo uma pessoa da FUNAI (Fundação Nacional do Índio). É sempre necessária uma autorização para os filmar e uma concordância dos próprios que o permita. Teve também que haver uma espécie de negociação: “Ok, vocês querem filmar, mas o que é que nos dão em troca?” Claro que não tínhamos uma grande produção, mas na cabeça deles um filme era algo em grande. Por exemplo pediram-nos para construir uma antena de telemóvel em troca da filmagem, mas claro que tal era impossível. Resolveram então pedir uma ponte que passasse sobre o rio. Acabámos por chegar a uma troca mais simbólica e a partir daí soltaram-se e não colocaram mais problemas.

Existe no entanto uma certa ambiguidade relativamente às etnias…

Sim, quando tens um avô negro e uma avó índia e um bisavô branco, o que é que tu és? No fundo o que se diz no Brasil é que são brasileiros, mas há pessoas que estão nas grandes cidades que optam por pertencer às comunidades com que mais se identificam. Actualmente, o facto de serem quilombolas, de serem descendentes de escravos é importante, até porque têm legalmente direito a terras e ajudas do governo. É algo recente que foi levado a cabo por antropólogos.

Como filmaste? Quais foram as tuas referências?

Não quis entrar numa linguagem que abordasse o ritmo samba com muitos planos e movimentos acelerados. Para este filme queria fazer precisamente o contrário. Andei à procura do quadro perfeito. Tentei fazer menos planos e dar-lhes mais tempo, planos fixos, em que esses quadros fossem retratos do que eu via e queria mostrar. Os únicos planos que existem em movimento deliberado são os de viagem. Planos subjectivos de carro ou de barco. Um filme que me influenciou foi o La Vie Moderne de Raymond Depardon. É um filme em que ele se aproxima dos locais e das pessoas com o mesmo estilo de abordagem. Um filme em que ele procura o quadro certo.

O filme foi muito bem acolhido no Brasil e foi lá que teve a sua estreia comercial. Fala-me sobre o processo.

O filme foi muito bem recebido no Brasil, ganhou prémios, teve um prémio nos Estados Unidos e outro em França. Em Portugal ainda não, mas existe uma questão  conceptual ou formal, que é o facto de se questionar a forma como abordo o filme. Gostava que as pessoas olhassem para os filmes como filmes e não que pensassem em realidade ou ficção. No Brasil e EUA nem sequer colocaram a forma em causa. Ou gostam ou não gostam. Estão para lá da questão de enquadrar o filme num género. Há uma liberdade criativa no documentário que não é posta em questão. Os brasileiros viajam imenso, mas não têm por hábito visitar o acampamento dos sem terra. Então ao verem o filme disseram-me: “tu estás a mostrar-nos coisas que sabemos que existem, mas que ao mesmo tempo são novas para nós”. Em Portugal foi exibido nos festivais Doc Lisboa e Festin, fez um circuito de cineclubes e passou recentemente na Cinemateca. Fizeram-se debates interessantes, mas não estreou em sala. Tenho uma certa pena que não tenha acontecido, mas tenho alguma esperança que ainda estreie. No Brasil o filme já está vendido para dois canais de televisão.

E o teu próximo filme? Já está em preparação?

Sim, já está, mas ainda à procura de financiamento. Tenho uma parte brasileira garantida, mas ainda não tenho o dinheiro suficiente para filmar. O filme é uma adaptação do romance de um escritor de uma cidade chamada Cataguases no estado de Minas Gerais, de Luís Rufato, e o livro chama-se “Estive em Lisboa e Lembrei de Você”. Trata-se da história de um imigrante brasileiro que há 10 anos atrás vem para Lisboa. Metade do filme é passado em Cataguases e a outra metade em Lisboa.

O que me chamou a atenção e me pareceu interessante nesta história é o não conhecer os imigrantes brasileiros antes de virem para Portugal e os motivos e as vivências que os levou a virem. A ideia que faziam de Portugal e de Lisboa há 10 anos atrás. O romance tem a particularidade de ser supostamente a transcrição de uma entrevista feita por Luís Rufato a um emigrante brasileiro que encontrou em Lisboa e lhe contou a história. É um filme narrado na primeira pessoa, como se fosse uma entrevista jornalística em que a personagem principal vai narrando a sua história.

O personagem principal (Sérgio) encontra em Lisboa o dono da pensão onde ele se hospeda: um antigo combatente da guerra colonial, que tem uma perna manca porque se feriu em África. O Sérgio é actor e para desempenhar o outro personagem vou procurar alguém que tenha estado em África e tenha vivido aquela situação, para poder interagir com Sérgio. É a personagem da realidade que vai entrar num jogo de ficção ao mesmo tempo que conta a sua própria história.