ENTREVISTA

• Entrevista a José Barahona

José BarahonaEntrevista

por Elsa Garcia

Foi após a leitura do livro de Luiz Rufatto que decidiste fazer o filme Estive em Lisboa e Lembrei de Você? O que mais te cativou e inspirou no livro?

Houve vários aspectos que me cativaram assim que li o livro. Primeiro o facto de o livro ser apresentado, na introdução, como um depoimento dado por Sérgio de Souza Sampaio, o protagonista, ao autor em Lisboa e de o livro ser dedicado a um amigo de Ruffato que lhe apresentou o Sérginho. Depois dessa nota introdutória, o que se segue é uma suposta transcrição da entrevista dada por Sérgio na primeira pessoa. Isso dá ao relato um “selo” de verosimilhança. Mas … trata-se de um romance. Sérgio é uma pessoa real? Não sei. Não importa. Ele é um personagem de um livro. Ora em cinema isso seria, se fizéssemos uma transposição literal, aquilo que chamamos de “falso documentário”. Poderíamos imaginar uma entrevista feita por alguém, num plano clássico de depoimento de documentário em que um actor representaria esse relato. Imaginei imediatamente que esse relato seria entrecortado com a reconstituição ficcional de algumas das cenas do livro criando assim um híbrido entre o “falso documentário” e a ficção. Talvez até mesmo encontrar alguém em Cataguases, cidade natal de Sérginho, que quisesse vir para Lisboa e usar a sua vinda, suas motivações e sonhos como âncora do filme. Isso não veio a acontecer pois a crise estava à porta em 2010/11, e o que acontecia era que os brasileiros que estavam em Lisboa começavam a pensar no seu regresso.

Depois o facto de eu, e muitos portugueses, sempre convivermos com pessoas com histórias de vida semelhantes: a imigração de pessoas menos qualificadas que trabalham em Lisboa e noutras cidades de Portugal em restaurantes, bares, cafés, na construção civil, etc. Mas eu tinha muita curiosidade de saber como era a vida deles antes de chegarem a Lisboa. Disso eu pouco sabia. Se por um lado houve muitos brasileiros que vieram para Lisboa já com trabalho assegurado como publicitários, arquitectos ou outras profissões, inclusive no audiovisual, estas pessoas mais humildes sonhavam com um Portugal e uma Lisboa onde poderiam construir uma vida melhor. Isso intrigava-me desde há muito. Foi preciso começar a trabalhar no Brasil e a conhecer mais de perto a sua realidade para perceber que a miséria no Brasil é muito mais profunda e desumana que em Portugal. Quando estamos em Portugal temos tendência a pensar que as coisas estão muito mal, que a vida é muito difícil economicamente, que é o pior país do mundo. Não é. Mesmo com a crise em Portugal, e mesmo com todos os progressos alcançados pelas políticas sociais dos últimos governos no Brasil, infelizmente a miséria no Brasil é infinitamente superior à existente em Portugal. O grau de pobreza, de escravidão, de fome e de exploração do homem pelo homem, as desigualdades e o abismo social entre ricos e pobres é muito maior!

E finalmente eu quis fazer deste livro um filme porque ele é de certa forma um espelho de mim próprio. Dadas todas as distâncias que referi anteriormente,  eu estava nesse momento a chegar ao Brasil como imigrante por causa da crise portuguesa e por causa da paralisia total na produção de cinema que se deu nessa época. Essa deslocação, o estar fora do meu lugar é algo com que me identificava. Eu poderia descobrir o passado do protagonista no Brasil, e retratar o estranhamento dele na cidade onde vivi quase toda a minha vida.

À semelhança de O Manuscrito Perdido como foi a experiência de fazer um filme entre Brasil e Portugal?

O Manuscrito Perdido foi uma experiência diferente pois ele foi totalmente filmado no Brasil, embora fosse um filme português. Já o Estive em Lisboa e Lembrei de Você é filmado nos dois países e é uma co-produção mais do que natural.

Na prática, o Estive em Lisboa e Lembrei de Você, foi quase dois filmes distintos, duas equipas de produção diferentes, duas realidades. Em Cataguases, no Brasil, filmámos com actores e técnicos da cidade que tem um pólo de produção audiovisual muito desenvolvido, o Pólo Audiovisual da Zona da Mata. Em Portugal, com outros actores e não actores e técnicos. Manteve-se apenas a produtora executiva, o director de fotografia e o director de som por uma questão de coerência estética. Todos os filmes são complexos de fazer, este não foi diferente e tinha esse desafio. Mas foi um desafio enriquecedor e que trouxe muitas mais valias. O que aprendi com O Manuscrito Perdido é que trabalhar com as pessoas dos lugares onde filmo me pode trazer muitas vantagens, não só práticas e logísticas, como de reflexão sobre o trabalho que estamos a fazer. Principalmente filmando num lugar que conhecemos mal, como era o caso de Cataguases. Aos actores e técnicos pedi que trouxessem a vivência e a cultura da cidade. E isso naturalmente acontecia. Caso contrário corremos o risco de não passar dos clichés que estão à superfície.

Dizes que ao chegar a Lisboa a personagem se debateu com uma realidade diferente daquela que sonhara. Com que Lisboa sonhava ele?

Não sei bem… não sei bem com o que sonhamos quando partimos do nosso lugar para um lugar que não o nosso. Há um mito de Lisboa, “a magnífica” no imaginário brasileiro. O lugar onde tudo começou, as origens, a arquitectura dos velhos prédios lisboetas que se parece com as cidades coloniais no Brasil. A Europa, em geral, como um lugar mais tranquilo, pacifico. Para os indígenas o começo do fim. O que chega ao Brasil não é a decadência social, económica e política que está a acontecer em Portugal. Isso é uma coisa que acontece muito. O “quintal do vizinho é sempre melhor que o meu”. É preciso viver num determinado lugar para percebermos os problemas que aí existem. Mas para os brasileiros e portugueses, em geral, acho que existe a sensação que, por causa da língua e das relações históricas, será mais fácil encontrar o nosso lugar ao fazer essa troca de país. Os brasileiros, por terem sempre recebido e até sido invadidos pelos portugueses, por terem graus de parentesco familiar (quase todos os brasileiros têm alguma ascendência portuguesa próxima), pensam que serão bem recebidos em Portugal. De alguma forma Portugal para os brasileiros é um lugar onde também podem pertencer. O que muitas vezes não é tão simples assim. Além disso quando se vai para fora do nosso país perdemos as nossas referências. E falo no plural, por mim, pelo Sérgio e pelos muitos imigrantes que encontrei e entrevistei na pesquisa para este e outros filmes. Os amigos, a família e a cultura ficam para trás. Não é fácil… Nunca é muito fácil. E há toda uma série de problemas que podem acontecer… No fundo todos procuramos uma vida melhor. Poder trabalhar e sustentar as nossas famílias. Esse é o ponto central daquilo que se procura, um sonho de uma vida melhor, num novo lugar onde se possa pertencer.

Procuraste pessoas que tinham histórias semelhantes às descritas no livro. Como foi essa pesquisa?

Na verdade eu fiz o caminho inverso que o Luiz Ruffato fez. Ele deve ter encontrado essas pessoas e transformou-as em personagens do seu livro. Ou juntou histórias e construiu as personagens a partir de várias pessoas com vidas semelhantes. Eu procurei pessoas que tivessem histórias de vida parecidas com as que Ruffato descreve e transformei-as em personagens do filme. Na verdade, eu não queria que isso fosse notório no filme, mas isso vem um pouco da minha experiência no documentário. A única diferença é que em cena, muitas vezes, essas pessoas que representam elas próprias em vez de falar para mim, fora do quadro, falam para o Sérgio. Por isso também ele é um espelho de mim próprio. Por vezes, eu ficava com o lugar do Paulo Azevedo, o actor que interpreta o Sérgio, e ficava perto dele e perguntava coisas, ou segredava ao seu ouvido as perguntas que ele poderia fazer. Enfim, o filme é muito híbrido porque mistura muitas técnicas do documentário e da ficção, encenando o documentário como sempre fiz nos meus outros filmes. Não é muito importante o processo. Importa que o resultado final é um trabalho conjunto para o qual todos contribuiram. Não tem nada a ver com uma aproximação à realidade. A realidade de um filme é o filme quando é visto. É cinema. O cinema pode apenas ser um espelho da realidade.

Começaste a tua procura em Cataguases, no entanto não encontraste ninguém que tivesse partido. Qual foi o passo seguinte?

Encontrar o actor perfeito para encarnar o Sérgio: o Paulo Azevedo.

No início pensaste em fazer um documentário sobre o livro. O que te levou a mudar de ideia?

No início, pensei que iria usar mais a linguagem do que habitualmente chamamos documentário. No entanto, fui abandonando a ideia a meio do processo. Mas apenas aparentemente, como disse antes. O filme parece ficção, mas tem muito de documental. Há um momento em que os filmes se libertam dos seus autores. Pelo menos, isso acontece comigo e aconteceu-me neste filme. O filme toma uma vida própria, como se pedisse para ser feito de uma determinada maneira, com uma determinada linguagem que já não somos nós que controlamos. Apenas vamos atrás do filme e do que ele nos demanda. Não sei explicar… é como se criasse a sua própria dinâmica da qual já não se pode escapar. Isso é bom, porque significa que estás a trabalhar em algo consistente, algo que tomou um rumo muito determinado no qual as escolhas do realizador são de forma a seguir um rumo traçado. É o filme, são as imagens e os sons que ao serem manipulados na filmagem e na montagem tomam uma forma que para o meu olhar só poderia ser aquela.

Trata-se de uma ficção com pontes no documentário, um género que gostas particularmente. O que mais te atrai neste género e o que é realidade e o que é ficção?

O Manuscrito Perdido era um documentário com pontes na ficção. O Estive em Lisboa… é uma ficção com pontes no documentário. Não é nenhuma atracção especial. O que eu faço é usar os meios e as técnicas que conheço para contar algo, transmitir sensações ou ideias sem estar preso a regras. Se um filme for mais bem contado com uma linguagem mais documental, tanto melhor. Importa o filme. Aquilo que o filme demanda e aquilo que posso fazer. Isso envolve por vezes os meios disponíveis, dinheiro para fechar uma rua, por exemplo, ou um restaurante. Se não há, filmo como se fosse um documentário e ponho o actor lá dentro. Ou o contrário, se quero contar ou transmitir algo num suposto documentário e sinto a necessidade de criar e encenar uma cena com actores, porque os personagens do documentário que representam eles próprios não conduzem o filme por onde eu acho que ele deve seguir, faço isso. É sempre uma demanda do filme. O único limite é a nossa imaginação e o dinheiro. Tudo é ficção. Já disse atrás. A realidade é uma coisa que não sei se existe… são tantas realidades, tantos pontos de vista… cada um de nós vê as coisas de forma diferente, filma as mesmas coisas de forma diferente. Então a minha realidade é uma. Mas no cinema só o filme é realidade. Existe um filme chamado Estive em Lisboa e Lembrei de Você quando é visto por alguém. Nem sequer existe película, só números, zeros e uns…

Ao longo do filme existiu algum acompanhamento por parte de Luiz Rufatto?

Troquei algumas mensagens ao longo do processo com o Luiz. No início, fui jantar a casa dele, em São Paulo, e conversámos. Mas mais para lhe contar em que pé estavam as coisas em termos de produção, filmagem, montagem, etc… Quando terminei uma versão de filmagem do argumento enviei-lhe. Ele só me disse que o meu Serginho era o mesmo Serginho do livro dele. O Luiz não interferiu em nada, nem pediu para ter alguma palavra a dizer. Fui eu que lhe enviei o argumento. Ele só pediu para assistir a um dia de filmagem, o que fez no último dia em Lisboa por questões de coincidência de datas. Isso talvez ele possa contar melhor do que eu, mas foi um dia muito emotivo para mim e para o Paulo Azevedo. Quando o Luiz nos disse que era assim que ele ouvia o Sérgio falar quando estava a escrever foi muito forte para nós. Foi um prazer imenso que ele estivesse connosco nesse dia e na estreia em São Paulo e julgo que ele está feliz com a leitura que fiz do seu livro. É difícil, porque cada um de nós ao ler um livro é, à sua maneira, realizador. Não no sentido técnico, isso é uma profissão que se aprende, mas todos imaginamos aquilo que é descrito nos romances, as cenas os personagens, conforme a nossa sensibilidade pessoal. Eu tenho uma família de psiquiatras e psicólogos, por exemplo. O meu avô levava-me a uma clínica onde ele ia ver doentes e eu ficava a brincar no jardim onde os doentes passeavam. Isso marcou-me. É um imaginário pessoal. Então quando o Luiz escreve no livro uma pequena frase como “Internaram-na numa clínica de repouso em Leopoldina” isso faz-me imaginar uma cena de quatro minutos. Outra pessoa poderia ter passado ao lado dessa frase. Não é certo nem errado, é o ponto de vista de cada um, o nosso envolvimento pessoal.

Trata-se de uma história bastante actual. A ida dos pobres para a Europa. Que paralelismo fazes com a actual questão dos refugiados?

Os refugiados, mais do que uma vida melhor, procuram a sobrevivência. É um caso ainda mais extremo. Uma guerra é algo sem explicação e justificação. No entanto, sei agora que muitas pessoas no Brasil vivem em lugares de “quase-guerra”, que é o que acontece nas favelas controladas pelo tráfico no Rio de Janeiro, por exemplo. Quando o tráfico proíbe as pessoas de sair de casa num determinado dia, quando as pessoas não vão trabalhar num outro dia por causa dos tiroteios entre as várias facções rivais, isso é viver debaixo de uma guerra. Conheço pessoas que vivem essa situação. Então pode não ser tão diferente assim. E nós devíamos ter essa consciência ao receber os brasileiros em Portugal. Todos os países deveriam estar de braços abertos uns para os outros em situações de catástrofe como a que se passa agora na Síria e com a chegada de milhares de pessoas à Europa. São vergonhosas as barreiras que se criam! Mas é uma realidade. O que existe em comum é que, ao chegarem e ao serem acolhidos (o que nem sempre acontece), eles vão passar pelas mesmas dificuldades que todos os outros imigrantes passam. Estes movimentos de pessoas entre países (o Brasil recebeu muitos portugueses por causa da crise em Portugal) devem ensinar-nos algo que já deveríamos ter aprendido, mas que muitas pessoas parecem ainda não saber: que o mundo é um só lugar, e que os homens traçam linhas imaginárias a que chamam fronteiras. Devemos aprender a ser tolerantes, a receber quem precisa de ajuda. Mas isto parece um discurso tão básico e tão óbvio que por esta altura não deveria necessitar de ser feito.

Infelizmente, a intolerância religiosa e cultural, o preconceito e a xenofobia ainda existem neste nosso mundo. Acho que isso é bem patente neste filme. Eu pude vivenciar isso em Portugal com amigos e familiares brasileiros. Era também sobre isso que queria falar. Se nos virmos nesse espelho que é o cinema, se nos rirmos de nós próprios, talvez na próxima oportunidade em que nos defrontemos com determinadas situações se possa agir de maneira diferente. Muitas vezes o preconceito é inconsciente, está enraizado. E uma coisa é brincar com as diferenças culturais com um sorriso nos lábios, outra é a descriminação feita de uma forma mais violenta.

Estes problemas já deviam estar ultrapassados no Séc. XXI. Temos questões mais importantes para resolver, como a fome, a miséria, a pobreza, a guerra e um planeta à beira de uma catástrofe ambiental!