ENTREVISTA

• Entrevista a Fernando Vendrell

Fernando Vendrell

por Elsa Garcia

Fotografia de Carlos Ramos

Como te sentes tratando no grande ecrã um dos mais importantes romances da literatura portuguesa do século XX?

Estamos no século XXI e tenho notado que há uma espécie de tentativa de esquecimento de alguns escritores muito importantes como Vergílio Ferreira. Apesar de ser uma obra conhecida, está em risco de passar a uma espécie de ocultamento e havia essa responsabilidade no filme.

No fundo, acabaste por fazer a tua análise, transpondo o livro para cinema e juntando uma espécie de autobiografia de Vergílio Ferreira (porque o próprio livro é autobiográfico).

Sim, essa ideia de autobiográfico é muito importante. Do ponto de vista literário, o romance posiciona-se num momento muito especial da vida de Vergílio Ferreira. Ele tinha escrito as suas primeiras obras envoltas no neorrealismo e de repente abraça um cariz mais filosófico e profundamente humanista do existencialismo. Esse momento de viragem é determinante para a carreira futura deste escritor. O jovem Alberto Soares está imbuído dessa experiência existencialista, dessa questão da morte. O que é que significa ser homem? O que é que significa a vida? Incorpora também frases e atitudes noutros personagens como o caso de Chico que perante a questão do existencialismo diz: “mas o homem já sabe que existe desde a idade da pedra lascada”. Ironizando, o que é importante, diz esta personagem, é que o homem possa comer, uma preocupação eminentemente social. A questão socialista de o homem ter condições de vida. O compromisso social do escritor está refletido na própria obra. Nessa altura Portugal vivia num regime fascista, sob uma ditadura. A liberdade de expressão, a divergência social, as discrepâncias e a forma como era distribuída a riqueza eram extremamente injustas.

No livro vemos uma reflexão sobre a vida e sobre a procura, uma busca do protagonista pela sua pessoa e pela sua aparição. Como é que transportas esta ideia para o filme?

A transmutação do livro para o filme é impossível. O livro tem uma forma literária, um grau de intimidade com o seu leitor e um grau filosófico e poético. Esse domínio de abstração é, objetivamente, muito difícil de criar num filme. A adaptação tornou-se, para mim, funcional quando fiz a análise do livro e senti que este impregnava momentos e vivências com que o próprio autor se confrontava. Vergílio procurava organizar, em matéria escrita, essas experiências e confrontá-las de uma forma espectral, quase como fantasmas da sua vida. Essa atitude é muito cinematográfica.

Como foi filmar em Évora, uma das nossas mais importantes cidades? Pode ser um cartão postal para o filme?

A Évora do filme é diferente da cidade de Évora que nós conhecemos. É um labirinto onde Alberto Soares transita, é uma cidade virtual e imaginária. Não há um bilhete postal de Évora. Há uma visão da cidade funcional, ergonómica, plástica para o conteúdo narrativo e emocional do filme.

Fala-me um pouco das tuas escolhas artísticas como a fotografia, que é muito marcante, ou os atores. Como surgem Victoria Guerra, Jaime Freitas e João Cachola?

Trabalhei com o diretor de fotografia Mário Castanheira que já fez filmes muito importantes. É uma pessoa muito especial com uma carreira no cinema muito heterogénea. O Jaime já tinha entrado no filme Cigano, produzido por mim, e considerei-o desde então um ator muito interessante. Depois fiz um casting longo para atores e atrizes jovens e apareceu João Cachola que se tornou uma personagem bastante forte para interpretar Carolino. A Victoria Guerra, de quem eu já seguia a carreira, estava com um trabalho longo, mas foi possível integrá-la no filme. Sempre a considerei uma atriz muito corajosa e determinada e achei que seria ideal para interpretar Sofia. Foi uma conjugação feliz.

Outro aspeto importante é que quando estava a preparar o filme preocupei-me com as mortes de Fernando Lopes e Fonseca e Costa, pessoas com quem trabalhei e com quem aprendi. Senti que era uma geração que estava a desaparecer. Então fiz uma espécie de prospeção, sobre a questão da linguagem e sobre essa forma de filmar, em jeito de homenagem. Alguns dos atores que estão no filme, não aparecem por acaso, trabalharam com essas pessoas. Há algo quase xamânico na forma como desenvolvi a realidade intrínseca para o filme, para que este tivesse uma profundidade mais prospetiva das emoções que eu queria explorar.

Tal como o livro, o filme também é existencialista. Como é que o filme lida com as questões da finitude humana?

O filme não é assertivo, não expressa um pensamento único. Apenas pretende tocar e envolver o espetador dentro dessa experiência. Não tenho um statement e sim uma visão sobre esta obra e a vida intrínseca à mesma. O filme vai mais além, procura outras questões mais fantasmáticas, de cariz poético, que estão implícitas na obra, mas que a obra não pode transportar através do cinema.

E como vês nos dias de hoje a relação das pessoas com a sua existência?

Depende muito de pessoa para pessoa, mas do ponto de vista social, há uma procura de fazer com que as pessoas não pensem. Este filme é de época, o romance está localizado num período onde se calhar essa necessidade de refletir socialmente era muito mais premente. Eu acho que, até pelo que estamos a viver hoje em dia, essa necessidade é ainda mais urgente. O alheamento e a indiferença sobre a forma como vivemos, quer a nível pessoal, quer a nível social, é determinante na nossa vida. A questão de termos a tecnologia nas mãos e de os órgãos de informação penetrarem através do nosso telemóvel não é relevante se não houver uma atitude nossa em relação à forma como esses media estão na nossa vida. Quando falo destas questões falo também de emoções, da forma como vivemos os nossos relacionamentos e da forma como podemos sentir a paixão e o amor, e o filme reflete sobre isso.

Nesta era em que vivemos, cada vez mais digital, de consumo rápido de informação, o filme representa uma pausa para pensar e refletir. Como vês esta pausa e esta ligação do cinema à literatura?

Esta velocidade de vida e solicitação constante por parte dos novos media, traz transformações sociais e a meu ver está a ser sobrevalorizada. Na realidade, ao invés de pensarem na tecnologia, as pessoas deveriam pensar na sua forma de viver. Há sempre esta ideia de que o cinema, principalmente o cinema português, é um cinema muito lento, demorado. Na realidade a sensação que eu tenho é a de que este filme é muito rápido, ou seja, demora um instante. Começa e no segundo seguinte já está a terminar. Se as pessoas não tiverem disponibilidade para viver cada momento não têm disponibilidade para nada.

Vergílio Ferreira iria gostar desta adaptação?

(risos) Bom, não sei, tenho algumas reservas sobre essa possibilidade pois não o conheci pessoalmente. Na realidade acho que iria ficar surpreendido e esta adaptação iria levantar-lhe questões, mas também acho que se a minha adaptação fosse feita durante a sua vida, mesmo que Vergílio Ferreira não me condicionasse, iria ser diferente.